Assim como é necessário conhecer o passado para compreender o processo de vida de cada pessoa, sem conhecer a história de um povo, não é possível compreender como ele se formou. Na medida em que somos naturalmente sociais, cada pessoa se descobre simultaneamente como indivíduo e como membro de grupos. E como as inclinações e os talentos humanos são diversos, a vida em coletividade demanda diálogos que estabeleçam entendimentos e acordos de convivência. Mas, porque é possível tanto cooperar quanto competir, as relações podem ocorrer como parcerias ou disputas.
Quando visões de mundo se encontram e há empatia, surgem sentimentos comunitários. Os que cooperam entendem que são mais fortes juntos, pois cada um possui talento natural, que enriquece inestimavelmente o conjunto de respostas do grupo aos desafios da realidade. Por meio de diálogos e investigações coletivas, questões cotidianas estimulam o surgimento espontâneo da cultura, e há o fortalecimento de identidades individuais e sociais.
Se as relações são construídas de forma competitiva e opressora, no entanto, estimula-se a fragmentação dos indivíduos e da vida. Os que competem entendem que não há espaço nem recursos suficientemente para todos, e que a sobrevivência de uns depende da exploração ou da eliminação de outros. Para esses, a cultura serve como instrumento de controle, que deve programar, conduzir, distrair, conter as pessoas, a fim de evitar que processos sociais denunciem ou ameacem modelos e protocolos estabelecidos autoritariamente.
A vida acontece em meio a avanços e recuos, e precisamos vê-la em perspectiva. Apesar de fatos serem irrefutáveis, a história depende sempre do ponto de vista do narrador. Investigações históricas estimulam reflexões sobre processos sociais, comportamentos e identidades. Com o estudo do passado, podemos compreender os processos de construção do presente. Assim, ganhamos perspectiva para visualizar caminhos e possibilidades no futuro. Quando entendemos de onde viemos e onde estamos, percebemos quem somos e podemos identificar aonde queremos ir. Assim, espontâneos e conectados à realidade, podemos ser o melhor de nós mesmos.
O contato dos europeus com os povos de cor implicou choques entre entendimentos opostos sobre o significado da vida, pois a cultura e o estilo de vida branco foram impostos sobre a humanidade por meio de superioridade bélica. Em meio a genocídios, escravidão, roubo de terras, pilhagem de riquezas e de conhecimentos, os brancos elaboraram instituições e estruturas que permitiram a exploração de pessoas e da natureza, e se apropriaram de tudo o que consideraram útil.
A perspectiva branca da história, cinicamente romantizada, disfarça a natureza perversa da cultura europeia e não mede esforços para ocultar a identidade dos povos de cor. Eles falseiam a história da humanidade (ao se apresentarem como culturalmente superiores e responsáveis pelo desenvolvimento da civilização) e consolidam perspectivas opressoras (ao glorificarem violências, crimes, genocídios). Por séculos, os brancos se veem como superiores aos outros povos da Terra, e usam ideologias (racismo, evolucionismo, economicismo) como recursos para construírem, por meio da exploração de pessoas e da natureza, o mundo de privilégios com o qual sonham, e de justificarem o sistema biocida e suicida que chamam de civilização.
A formação do Brasil como empresa branca, sem projeto popular e com desigualdades sociais estruturais, resultou em realidade na qual as pessoas de cor representam a maioria das populações oprimidas do país. A falta dessa compreensão favorece o surgimento de soluções paliativas e excludentes, que não lidam com a origem dos problemas e agravam sintomas. O estilo de vida branco, que desconhece e desconsidera o Sagrado, e tem o mercado como referência máxima da existência humana, promove modelo que opera como parasita, o qual pretende explorar a Terra e a vida até o limite do possível para garantir regalias e miragens aos detentores do poder.
A fim de convencerem a humanidade de que representam os
interesses de todos e de manterem posições de liderança e de controle, no entanto, eles até fazem promessas, ajustes, reformas, concessões, desde que não passem de mudanças inofensivas à estrutura do sistema que criaram.
As perspectivas dos povos de cor, contudo, ao denunciarem a brutalidade do colonialismo branco, são críticas, dolorosas, mas realistas, reveladoras e libertadoras. Sobreviventes, os povos de cor continuam a lutar pelo direito de serem protagonistas autênticos das próprias existências e de sociedade etnicamente diversa, que precisa ser fundamentalmente humana.
A prioridade de qualquer nação deveria ser promover e proteger a vida, mas ideologias como o racismo e o evolucionismo provocam divisões e guerras. Apesar de escravizados, subestimados, excluídos, negados identidade, percebidos como fauna a ser explorada, os povos de cor construíram o Brasil. As culturas deles, no entanto, condenadas pelos brancos como “primitivas” e maléficas à sociedade, foram violentamente reprimidas e perseguidas, Mesmo assim, são elas que enfatizamos quando descrevemos o Brasil socialmente para estrangeiros.
A opressão dos povos de cor e da Natureza pelo estilo de vida branco é a causa principal das crises sociais, políticas, econômicas e ambientais pelas quais a humanidade passa. E é nas percepções de mundo deles que o branco pode encontrar entendimento para viver em cooperação, de forma includente, naturalmente feliz, grato pelo milagre da existência. Se formos o resultado de diálogos entre civilizações, poderemos viver livres de monólogo colonial, mantido autoritariamente com o uso da força (que reprime a expressão de outras compreensões da existência), e com o apoio de ilusões (que falseiam a realidade).
Este trabalho, resultado de cerca de vinte anos de vivências, diálogos, pesquisas, estudos e reflexões, apresenta, de forma breve, fluida, panorâmica e acessível, uma perspectiva preta da história do Brasil. Sem a pretensão de esgotar assunto imenso, combinamos elementos políticos, econômicos, culturais, científicos, espirituais e estratégicos de processos e personagens históricos africanos, europeus e brasileiros para motivar reflexões sobre identidade africana, colonialismo branco, escravidão, escravismo, consequências da abolição, privilégios de cor, falácias da “civilização” branca e contribuições vitais dos pretos para o Brasil e para a humanidade.
Com o objetivo de priorizar a fluidez da leitura, evitamos fazer notas de rodapé. Para quem desejar ir mais a fundo, apresentamos, na Bibliografia, obras que pesquisamos durante a elaboração deste estudo. Além disso, nos dias de hoje, sempre se deve aproveitar as possibilidades de pesquisas online, para comparar informações ou interpretações diferentes sobre qualquer tema. Continuamos a parceria com Paulo do Amparo, que nos presenteou novamente com ilustrações e o comentário (os quais enriquecem inestimavelmente este trabalho), e com o professor Clayton Avelar, que carinhosamente fez a sinopse deste estudo e a revisão historiográfica (a qual evitou imprecisões ou erros). Mesmo assim, possíveis falhas são de responsabilidade minha.
Esperamos que esta obra, realizada com esforço e dedicação pessoal, contribua para aliviar a escassez de informações em português sobre a África e os africanos no país com a maior quantidade de pretos depois da Nigéria. Também desejamos que esta leitura traga reflexões libertadoras e empoderadoras sobre a vida e o viver, e que isso motive a expressão de sentimentos, entendimentos e talentos em trabalhos pelo erguimento da humanidade. Um Amor e Máximo Respeito.
André Duarte P de Albuquerque Maceió / 2017